Mulher linda, alta, de cabelos escuros e olhos azuis, Olga
nasceu em Munique, cidade alemã. Desde cedo participou de
atividades comunistas e, graduada pelo KOMINTERN – a Terceira
Internacional – recebeu a mais importante tarefa de sua vida:
participar da realização de uma Revolução Comunista no
Brasil.
No Brasil, já casada com Luís Carlos Prestes, líder do
movimento que entrará para a história brasileira como
“Intentona Comunista”, Olga foi fundamental para o andamento
da revolução. Morando no Rio de Janeiro, através das inúmeras
reuniões, conviveu com todos os integrantes da liderança do
movimento no meio do qual nasceram grandes amizades.
Com o fracasso da revolução e a sua conseqüente prisão,
Olga, grávida de sete meses, é entregue a Hitler por Vargas.
Sendo deportada para a Alemanha e longe do Brasil, país que
aprendeu a amar e respeitar, Olga Benario tem sua primeira e única
filha, Anita Leocádia, uma alegria no meio de tanto sofrimento.
Em
um campo de concentração da Alemanha nazista, Olga vivencia os
últimos dias de sua vida. Morta por um gás letal, ela ainda
vive, mas como uma importantíssima pessoa que deixou o seu
valor na história do comunismo mundial e que fez do seu ideal
de vida um sonho para vários povos de todo o mundo.
Tempos
de Conspiração
Membro do Partido Comunista e namorada de Otto Braun, em 1926
liderou o processo de sua remoção da prisão de Moabit, onde
estava retido sob acusação de conspiração contra o Estado e
alta traição. Tornou-se vital o seu exílio na União Soviética.
Em Moscou o casal se instalou no Hotel Desna, a seguir foram
transferidos para um edifício destinado aos jovens
estrangeiros.
Duas semanas após ter chegado a Moscou, Olga e Otto participam
de um curso de formação política e, quando chamada ao palco
para dar o seu depoimento sobre os eventos de Moabit Olga, muito
emocionada e aplaudida, confessou:
"_ Eu gostaria que vocês soubessem que ali eu cumpri duas
tarefas: uma do partido e outra do meu coração."
Era a consagração de Olga. Passa a crescer no Partido e suas
atribuições aumentam correspondentemente, o que leva Otto à
exasperação dos ciúmes.
Ao final de 1931, Olga seria escalada para sua primeira missão
internacional, em Paris. A notícia de que Olga ficaria fora por
tempo indeterminado devido a uma operação internacional, foi a
gota d’água para Otto. Eles romperam o romance e Otto contou
que tinha outra mulher. Foi quando Olga percebeu em si, pela
primeira vez, o sentimento que tanto condenava no companheiro:
ciúme. E é também se remoendo em ciúmes que ela viaja a
Paris.
Voltando a Moscou, recebe a notícia de que lhe haviam dado o
mais alto cargo da hierarquia de uma organização comunista.
Tinham acabado de aclamá-la como presidente de sua Célula, por
unanimidade. A seguir, um prêmio: Olga participou – sempre
com grande entusiasmo – de um curso de pára-quedismo e
pilotagem de aviões. Após uma simulação de vôo, ela ouviu
um latino-americano contando o caso da “Coluna Prestes” e
ficou impressionada com o feito: 25 mil quilômetros a pé,
enfrentando tropas regulares de um governo ditatorial, contra
ele lutando sempre mas terminou sem lograr seu propósito
principal, mas sem jamais sofrer uma única derrota. Não
imaginavam que Prestes estava ali mesmo, em Moscou, a poucos
metros de distância de onde se encontravam.
Prestes estava ali na condição de engenheiro. Sua vida não
era simples; a ele não eram destinadas algumas das regalias
oferecidas que o governo soviético ofertava às altas
autoridades comunistas de outras partes do mundo. Nas horas
vagas, participava de conferências ou reuniões do Partido
Comunista e foi num desses encontros que ouviu falar em Olga
pela primeira vez.
Foi com grande felicidade que, em fins de 1934, Prestes recebeu
a notícia de que ingressaria no Partido Comunista Brasileiro
devido, inclusive, à pressão de Moscou neste sentido – à
ocasião, havia divergências contra ele dentro do Partido no
Brasil. Sua primeira missão para o KOMINTERN: liderar uma
revolução que tirasse o Brasil da ditadura do Estado Novo e do
Capital e o inserisse no mundo feliz do comunismo internacional.
Olga foi designada chefe de sua segurança pessoal.
O
Primeiro Amor de Prestes
Olga e Prestes vão para Leningrado, onde chegam às 8 horas da
manhã do dia seguinte. À noite, partem para Helsinque, e de lá,
para Estocolmo. Olga, por medida de segurança, decide que irão
passar a noite em Amsterdã onde um contato poderia
fornecer-lhes documentação segura. O casal ficou três semanas
a espera do contato em Amsterdã mas, considerando o perigo de
ficar tanto tempo em um só lugar, decidem-se por partir, como
estavam, para Bruxelas.
As três primeiras semanas de viagem permitiram que o casal se
conhecesse melhor. O medo de serem descobertos e presos, levou
Olga a querer sair também de Bruxelas. Tomaram um trem e
deslocaram-se a Paris. Viajariam como um casal em lua-de-mel.
O contato que eles acabaram por perder em Amsterdã e Bruxelas
finalmente aparece em Paris. No dia 8 de março, recebem
documentos novos e fazem mais alguns ajustes a fim de
solidificar sua aparência de plena legalidade. Nada melhor para
isso como um visto de entrada... nos EUA! O consulado
norte-americano em Paris concedeu o visto sem problemas, na
terceira semana de março viajaram usando as identidades de Antônio
Vilar e Maria Bergner Vilar.
A fachada que usavam – recém-casados – obrigava Olga e
Prestes a intimidades imprevistas. Um casal em lua-de-mel não
apenas dorme no mesmo quarto, mas na mesma cama. Além disso,
aproximava-os a afinidade intelectual e política, cada vez
maior entre os dois, além do fato de serem jovens, bonitos e
entusiasmados com a perspectiva de estarem às portas da revolução.
Para um homem de 37 anos, Prestes vivera precocemente toda a
sorte de experiências políticas: liderara uma rebelião
militar, conspirara contra governos, fora preso e exilado,
convivera com os mais importantes dirigentes comunistas na União
Soviética. Mas o rigor, a disciplina e a dedicação à causa
tinham cobrado dele um preço alto: até então Luís Carlos
Prestes nunca tinha estado com uma mulher. A orfandade prematura
levou-o, aos dez anos de idade, a tornar-se o chefe de sua família.
O pouco tempo que lhe sobrava da escola militar era dedicado aos
estudos. A mãe não permitira que ele trabalhasse: preferia ela
fazê-lo, com a condição de que o filho se entregasse aos
livros e fosse o primeiro aluno da classe. A vida da família
suburbana do Rio de Janeiro era tão difícil que ele teve de
obter permissão especial para andar fardado fora da Escola
Militar: Prestes não dispunha sequer de trajes paisanos para
vestir. Durante a Coluna ele se sentira na obrigação, enquanto
comandante, de dar o exemplo de disciplina: ao contrário de
muitos de seus comandados, não se envolveu com as mulheres que
acompanharam a marcha. A política e a preocupação com a educação
das quatro irmãs tinham-lhe roubado todo o tempo. E se Prestes
chegara aos 37 anos sem ter tido uma namorada, uma paixão, uma
mulher, não poderia haver circunstância mais propícia para
começa: estava em alto mar, num camarote luxuoso, acompanhado
de uma belíssima mulher, comunista e revolucionária como ele.
Quando o Ville de Paris atracou no porto de Nova York, na manhã
de 26 de março de 1936, o que até então era uma ficção,
montada pela Internacional Comunista, tinha virado realidade:
Como seus personagens Antônio Vilar e Maria Bergner, Prestes e
Olga eram marido e mulher. Passaram a lua-de-mel em Nova York.
Pegaram um trem para Miami, onde iniciaram a viagem para o
Brasil, passando por Santiago e Buenos Aires, via aérea. Na
Argentina, arrumaram toda a documentação para entrar no
Brasil. Assim, na madrugada do dia 15 de abril, os dois
embarcaram no aeroporto Santos Dumont. Quando o dia amanheceu o
avião já voava baixinho. Um avião não tem grandes janelas,
somente pequeninas escotilhas. Foi através delas que Olga teve
seu primeiro alumbramento com o Brasil. Habituada à Europa, ela
nunca imaginara tal luminosidade - um sol fortíssimo batia
sobre o verde escuro da mata e o azul do mar, divididos pelo
risco branco e interminável da areia da praia.
Prestes e Olga desembarcaram em Florianópolis, pegaram um taxi
até Curitiba, de lá pegaram outro, com destino a São Paulo,
onde se hospedaram num confortável hotel no largo do Arouche.
Mais tarde Olga travou conhecimento com um simpatizante, o excêntrico
milionário Pavarenti, que os levou para a sua casa de campo no
bairro de Santo Amaro. No dia seguinte, Miranda, secretário-geral
do partido comunista, recebia a notícia de que Prestes estava
no Brasil.
Ao
Brasil, atravessando percalços
Anúncios em jornais de todo o mundo e todos os matizes ideológicos
da época, dizendo que Prestes estaria retornando ao país,
levaram Getúlio Vargas a exigir da polícia política redobrada
precaução. Filinto Muller, chefe de polícia da cidade do Rio
de Janeiro, na prática uma espécie de “ministro da Justiça”
de Getúlio, incumbiu-se de organizar os órgãos de segurança
estatal para “recepcionar” o casal. Contudo, não apenas os
órgãos de segurança os aguardavam. Além de Prestes e de
Olga, um pequeno grupo de comunistas internacionais iniciava
viagens discretas e sinuosas. Um dos participantes, Arthur Ewert,
era antigo conhecido de Olga. Junto com ele, sua mulher Elise,
apelidada de Sabo; o argentino Rodolfo Ghioldi, de pseudônimo
de Luciano Busteros, e sua mulher Carmem Ghioldi, que viajava
com seu nome verdadeiro; o norte-americano Victor Allen Barron;
os belgas León-Jules Vallée e sua mulher Alphonsine, com os
nomes verdadeiros; o alemão Paul Gruber e sua mulher Érika. A
larga experiência do grupo – pequeno mas qualitativo –
enviado ao Brasil era prova cabal da completa credulidade que a
União Soviética havia depositado no sucesso da insurreição
no Brasil.

Mãos
à Obra!
Assim que chegaram ao Rio de Janeiro, Olga e Prestes se
hospedaram num hotel e passam a procurar casa para morar.
Escolhem uma na Rua Barão da Torre, nas imediações da casa
dos Ewert. Devidamente instalados, encontraram-se pela primeira
vez com seus companheiros na casa dos Ewert, e ali mesmo
distribuem as tarefas iniciais: Erika trabalharia como datilógrafa
na casa de Ewert e, quando necessário, como motorista dos
Villar; Gruber, técnico em explosivos, instalaria
num pequeno cofre da casa de Prestes e Olga um sistema de alarme
eficiente, capaz de impedir o acesso de estranhos ao dinheiro e
à documentação ali depositada; Victor Barron, especialista em
radiotelegrafia, ficaria com a tarefa de construir um
radiotransmissor para que os revoltosos pudessem comunicar-se
entre si, e com o KOMINTERN. León-Jules Vallée e sua mulher
cuidariam das finanças.
Na década de 20, o Movimento Revolucionário da recém fundada
Aliança Nacional Libertadora ganhava adeptos das classes
desfavorecidas da sociedade da época.
Seus ideais eram baseados na luta contra o fascismo, contra o
imperialismo, o subdesenvolvimento e o latifúndio. A ANL
contava com organizações diferentes: de operários,
comunistas, socialistas, liberais, cristãos e os militares
experientes das revoltas tenentistas, de 1922 a 1924. Tinha como
líder Luís Carlos Prestes que, na presidência, estimulava a
agitação aliancista. O movimento ganhava força de uma
verdadeira revolução. Os aliancistas iam para as ruas, faziam
passeatas deixando claro seu propósito de atingir o
governo.
O avanço da ANL assustava o governo Vargas. Uma carta enviada
por Luís Carlos Prestes propondo uma revolução foi o pretexto
para Vargas decretar a ilegalidade do PCB e da Aliança como
partido. A polícia tentava descobrir o paradeiro do presidente
da Aliança que, devido a um golpe comunista, conseguiu simular
a sua estadia no exterior. Isto fez o governo desviar as atenções
dos manifestantes
Começa
a mobilização
O golpe desferido pelo governo abalou o movimento. Vários dos
revoltosos abandonaram a Aliança. A ANL passara a ser um
aparelho clandestino mantido basicamente pelos comunistas
revolucionários. Cabia a Prestes executar na ANL as decisões
que o partido tomava.
A predominância do Partido Comunista sobre a Aliança,
juntamente com a linha insurrecional, que passou a orientar o
movimento, provocou a natural deserção dos burgueses ali a
contrabando.
O tom da carta de Miguel Costa, companheiro da Coluna, é de
despedida. Ele propõe a continuação da luta na legalidade,
dando sugestões: a criação de organizações partidárias em
cada estado, com programas iguais a da ANL só que com outra
denominação. Prestes envia uma carta para Miguel pedindo a ele
que permaneça na ANL e mantém a defesa intransigente da tomada
do poder. A despeito dos fatos informarem o contrário, Prestes
considerava que a revolução estava próxima...
Jornais conservadores denunciavam a presença de Prestes em vários
pontos do país. A imprensa Comunista praticava a contra-informação
neste sentido: publicava, por exemplo, que Prestes estava fora
do Brasil. O movimento revolucionário ocorreu de maneira assíncrona,
surpreendendo mesmo os líderes. Infelizmente, porém, a correlação
de forças estava muito mais favorável a Vargas naquele
instante.
Em 23 de novembro, soldados e sargentos do vigésimo primeiro
batalhão de caçadores de Natal tomavam a guarnição militar
da cidade. O jornal Liberdade anunciava que o poder havia
passado para a ANL e estava instalado o Governo Popular
Revolucionário. Vários fatos se sucederam. A revolução durou
5 dias. Houve movimentos revolucionários em vários pontos do
Brasil, como o de Recife, por exemplo, que durou 48 horas. Olga,
Prestes e os demais camaradas se reuniram para decidir o que
fazer a respeito das revoltas não programadas.
Todos eram contrários ao início da insurreição como estava
se dando. Todos, exceto Prestes. Depois de uma grande discussão,
decidiu-se por iniciar a insurreição no Rio de Janeiro;
Prestes teve o voto de Minerva sob o argumento de que a Marinha
estava ao seu lado. Decidiram o plano da revolução. Prestes
despachou mensageiros para todas as guarnições onde havia
oficiais aguardando ordens para o início do levante. Decidiu
também que era necessário uma nova casa para ele e Olga, na
zona norte, mais próxima ao complexo da Vila Militar. Mandou
Miranda orientar Barron, para por o rádio em funcionamento a
fim de poderem informar ao KOMINTERN a decisão do levante. No
momento que os revoltosos tomassem as unidades, poucos minutos
seriam suficientes para que Prestes assumisse, da Vila Militar,
o controle de toda a Nação.
Prestes redigiu um manifesto informando sobre seus propósitos e
convocando a população à adesão. Pela primeira vez se
admitia sua presença no Brasil. Ele e Olga se mudaram para a
casa nova. À noite do dia 26 de novembro, Barron ligou a estação
de rádio e transmitiu ao KOMINTERN a decisão sobre a eclosão
do levante. A revolução comunista brasileira começaria às 3
horas da madrugada do dia 27 de novembro.
Mesmo entre companheiros, todo o cuidado é pouco...
Na prática, a revolução começou às 3h e foi abandonada às
13h. Nenhuma das guarnições da Vila Militar se levantou. A
revolta ficou restrita ao 3º Regimento de Infantaria, e foi
sufocada em poucas horas.
Teve suas poucas horas de aparente glória, o que não conteve a
repressão por parte das forças governistas. Antes mesmo da
rebelião, o Brasil já estava em Estado de Sítio decretado por
Vargas. Esta situação se prolongou e, com ela, a repressão
aos comunistas, tão grande que lotou as cadeias em pouco tempo.
Mesmo assim, um mês depois de desencadeada a repressão, alguns
dos líderes do movimento ainda estavam ilesos.
A 26 de dezembro foram presos Arthur Ewert e Sabo. Ao saber de
tal fato Olga e Prestes se mudaram com receio de também serem
encontrados. Athur Ewert e sua esposa foram submetidos a tantas
torturas e sevícias que ele ficaria completamente louco.
Ewert tinha esperança de que a polícia brasileira não
conhecesse sua verdadeira identidade, porém Filinto Muller já
a havia conseguido com o Serviço de Inteligência Britânica.
Junto com uma montanha de papéis, documentos, manuscritos,
cartas e bilhetes apreendido na casa de Ewert, a polícia
conseguiu com a doméstica Deolinda Elias informações sobre
todos os freqüentadores da casa. Conseguiram o endereço de
Prestes, invadiram sua casa e abriram o cofre. Com a falha dos
dispositivos instalados Paul Gruber descobriu-se ser agente do
MI-5, o serviço secreto britânico, infiltrado. Ele e sua
mulher, Erika, tinham conhecimento de praticamente todos os
planos da insurreição de 27 de novembro.
Filinto Muller folheou, os documentos apreendidos na casa de
Olga e Prestes em Ipanema. O acervo encontrado pela polícia na
casa de Arthur Ewert não era menos abundante. No entanto,
alguns documentos chamaram particularmente a atenção dos
policiais: os relatórios minuciosos sobre a vida pessoal e as
atividades de delegados da polícia política e o salvo conduto
dado por Prestes a Berger na véspera da revolta.
Muller passou mais uma vez pela antiga casa de Olga e Prestes, e
deu uma enigmática ordem aos investigadores:
“_ Antes de fechar a casa, desamarrem aquele cachorro que está
no quintal e levem-no para o meu gabinete – referindo-se ao
animal de estimação que Prestes havia ofertado como um
presente a Olga.”
Muller comunicou a Vargas o resultado da operação e decidiu
confirmar junto ao Departamento de Estado norte-americano a
verdadeira identidade de Harry Berger (Arthur Ewert). Sem
sucesso apelou para o cônsul dos EUA em Berlim.
Ewert e Sabo resistiam milagrosamente à violência dos
policiais alemães e brasileiros que os seviciaram brutalmente.
Sua capacidade de resistência surpreendia até aos
torturadores.
No dia 6 de janeiro, Muller anunciou à imprensa a prisão
efetuada 11 dias antes, como sendo resultado das investigações
brasileiras, e negando torturas.
Sucessivamente prenderam Miranda (secretário-geral do partido
comunista) e Elza, sua mulher, notícia divulgada 4 dias depois
do fato. Enquanto presos sem acusação ou sem o reconhecimento
oficial de seu aprisionamento, estariam sujeitos também a toda
a espécie de torturas.
Olga e Prestes decidem se mudar novamente, desta vez escolhendo
o Méier, um bairro operário que aparentava ser o lugar ideal:
longe da polícia. Lá eles morariam junto com um casal também
comunista foragidos da polícia: Manoel dos Santos e Júlia dos
Santos. Valeram-se da ajuda de Victor Barron, que ainda não
havia sido importunado pela repressão. Levavam uma bagagem
discreta e Prestes passaria a manter contato com Lauro da Rocha,
(novo presidente do Partido), através de mensageiros.
O governo norte americano participou das investigações sobre a
“conexão brasileira”, enviando um investigador: Xanthaky,
que falava fluentemente português e espanhol.
A primeira tarefa de Xanthaky foi interrogar Ewert e Elise. O
estadunidense ficou impressionado com o que viu na cela. Ewert
dramaticamente enfraquecido, porém não acrescentou nada ao
investigador, só procurou tirar proveito da situação, pois
sabia que enquanto a visita durasse não haveriam torturas.
Xanthaky, na saída, pediu aos policiais que transferissem Elise
para a cela de Ewert, atendendo ao pedido deste, e procurou
saber mais sobre Prestes. A única informação que conseguiu
colher dos policiais, é de que eles tinham ordens de não trazê-lo
vivo.
O investigador transmitiu um minucioso telegrama ao Departamento
de Estado sobre a conversa que mantivera com Ewert e Elise.
É
possível resistir à tortura física?
A polícia descobriu Rodolfo Ghioldi através de Elvira, mulher
de Miranda, que o havia reconhecido. Ele e sua esposa foram
presos num trem que efetivara uma parada em Jacareí. Na
prisão, percebe que Miranda estava ajudando os policiais e
assim, de nada adiantaria mentir. Ele identifica León-Vallée
numa foto. Com isso, os policiais prendem León na esperança de
que ele os levasse até Pretes. Rodolfo também deu o nome e
endereço de um americano, Victor Allen Barron (que ainda não
despertava nenhuma suspeita nas forças de repressão), e que
foi preso mais tarde. Tentou se defender mas não conseguiu
explicar como tinha tanto dinheiro sendo um modesto
representante da John Reiner & CO, fábrica de motores de
Nova York, e não tinha vendido uma só unidade. Também foi
barbaramente torturado.
A prisão de um autêntico cidadão norte-americano caiu do céu
para a embaixada dos Estados Unidos, que ganhava, assim, um
pretexto legalmente indiscutível para intrometer-se ainda mais
nas investigações da polícia brasileira. A embaixada
americana destacou Xanthaky para que pudesse interrogar Allen
Barron, e o encontrou em estado lastimável. Ele exigiu da polícia
brasileira melhores tratos, mas não foi atendido.
Por fim, Ghioldi ofereceu de presente aos policiais uma informação
absolutamente nova: Prestes estava casado com uma mulher clara,
provavelmente estrangeira - pois sempre se comunicava com ele em
francês - e que ficava permanentemente a seu lado. Ghioldi
ignorava o sobrenome da mulher, mas tinha absoluta certeza de
seu nome: Olga.
A Ignorância do Poder constituído...
O delegado Antônio Canavarro, a partir das informações dadas
pelo dirigente comunista argentino, Rodolfo Ghioldi, enviou um
ofício ao capitão Miranda Correia solicitando a presença de
Olga de Tal no cartório, para prestar declarações.
Ao receber o recado e as novas informações, Miranda Correia
logo as transmitiu ao chefe da polícia, Filinto Muller, que era
inimigo figadal de Prestes desde a época da Coluna.
Chegou a época do carnaval. O carnaval daquele ano foi
transformado para se adaptar às ordens do chefe da polícia: não
se podia usar máscara ou fantasias e a festa não deveria
passar das 22h. Ainda assim, Olga, que nunca havia visto um
carnaval antes, ficou deliciada com as marchinhas. Foi uma
descontração dentro de uma situação penosa, que só lhe
permitia ir ao banheiro à noite, já que este se localizava
fora da casa em que morava, e toda precaução era necessária a
fim de que ela e Prestes não fossem descobertos. Ali, novamente
o destino a colocava a cumprir duas tarefas: uma do partido e
outra de seu coração.
O casal se informava acerca do que estava acontecendo no mundo
com o auxílio de Manoel, seu companheiro de moradia, que lhes
trazia jornais incluindo anotações feitas por espiões
comunistas dentro dos presídios. Um deles chamou a atenção:
os policiais começavam a desconfiar da existência de espiões
na polícia. Enquanto isso a polícia continuava a rastrear
Prestes por toda a cidade.
A polícia, por informações tortuosas, resolveu verificar a
possibilidade do Méier como último refúgio do casal Prestes.
A chuva era intensa quando os “cabeças de tomate”, apelido
que os cariocas haviam atribuído aos soldados que usavam um
chapéu vermelho, chegaram à Rua Honório. Eles revistavam
todas as casas por onde passavam. Ao baterem à porta de
Prestes, dona Júlia foi atender. Ao saber que era a polícia
Prestes tentou fugir, mas a casa estava cercada. Ele foi logo
reconhecido, e os policiais receberam a ordem de entrar
atirando. Vários soldados e policiais civis avançou sobre dona
Júlia, de metralhadoras engatilhadas, em direção ao pequeno
corredor por onde Prestes entrara. Foi então que aconteceu algo
inesperado. Uma mulher enorme, vistosa, pula na frente de
Prestes, protegendo-o com o próprio corpo e emite um grito. Não
era um pedido de clemência, era uma ordem:
“_ Não atirem! Ele está desarmado!” O gesto inesperado os
deixou paralisados e salvou a vida do Cavaleiro da Esperança.
Trouxeram o cachorro para reconhecer seus donos. Sem demonstrar
o menor traço de temor, Prestes, que estava de pijamas, pediu a
Galvão para trocar de roupa mas não conseguiu:
“_ O senhor vai assim mesmo.”
Na rua, tentaram colocá-los em carros separados, mas Olga
percebeu que aquilo significaria a morte de Prestes. Agarrou-se
ao marido com tamanha força que não houve a menor
possibilidade de separá-los. Assim, transportaram-nos juntos
para a sede da Polícia Central. Havia tantos policiais a guardá-los
dentro do veículo que Olga teve de ir sentada no colo do
marido. O comboio atravessou a cidade despertando os moradores
das ruas por onde passava: sirenes ligadas, tiro para o alto,
garrafas de cachaça correndo nos caminhões que transportavam
os 200 soldados molhados.
Quando desembarcaram no saguão do edifício, Olga e Prestes
foram separados. Miranda Correia informou que eles seriam
ouvidos em salas diferentes. Prestes foi colocado dentro de um
pequeno elevador, sempre acompanhado por policiais armados, e
ela levada para outra sala. Quando a porta gradeada do elevador
se fechou, os dois se olharam pela última vez.
"Suicidado"
pela polícia política
Logo ao chegar na policia central, Prestes foi informado de que
Barron o havia denunciado e depois cometido suicídio. Custa a
acreditar. O fato de o suicídio haver ocorrido num salto de
menos de um andar de altura tornam a história ainda menos plausível.
Prestes fica indignado com a notícia do “suicídio” de
Barron e, ao ser interrogado, mantinha o mais estrito silêncio
ou, no máximo, respondia monossilabicamente.
Filinto Muller encontrou documentos também na casa em que
Prestes fora preso, além de algum dinheiro. Em um desses
documentos surgiu o nome “tribunal vermelho”: o processo
pelo qual Elvira ou Garota teria sido justiçada. Elvira fora
acusada e encontrada culpada de traição pelo partido
comunista. Interrogada por León-Jules Vallée, foi logo a
seguir executada. Este fato deu ensejo a uma acusação de
“assassinato” imputada a Prestes.
A morte de Barron jamais foi questionada pela imprensa
brasileira. O governo americano montou uma comissão para apurar
os fatos.
Após o esfriamento do caso Barron, a notícia de que Ewert e
Elise estavam sendo torturados chegou à imprensa. Logo era
manchete nos principais jornais do mundo, que cada vez mais
criticavam o Brasil pelo tratamento aos estrangeiros. Em público,
os policiais brasileiros afirmavam que “todos os prisioneiros
políticos eram bem tratados.” Mas não admitiam inspeção
nos presídios!
Alianças
do Estado Novo com o Eixo
A esposa de Prestes, nos interrogatórios, insistia em dizer que
era brasileira e que se chamava Maria Vilar. Porém, após as
investigações da polícia brasileira junto à GESTAPO, Polícia
Secreta Nazista, descobriu-se tratar de Olga Benario, uma
oficial de alta patente da Terceira Internacional.
Descoberta sua verdadeira identidade, Olga Benario foi mandada
para outro presídio. Lá ficou numa cela coletiva junto à sua
amiga Sabo e outras mulheres que haviam participado direta ou
indiretamente da revolta de 27 de novembro. Ao lado de sua cela
ficava uma cela masculina. Homens e mulheres trocavam informações
secretas através de um orifício na parede, que também servia
como veículo à troca de palavras de amor. Nesta mesma prisão
e precisamente à mesma época, também se encontrava Graciliano
Ramos.
Nesse período de encarceramento, Olga se descobriu grávida.
Esposa de brasileiro e agora esperando dele uma criança,
sentia-se um pouco mais segura. Em vão. Na surdina se urdia a
sua transferência às autoridades nazistas.
Xenofobia
e medo
Para Olga era o pior dos mundos ir a um governo centrado
principalmente no ódio a judeus e comunistas.
Num
dos dias de visita na cadeia, Olga soube que iriam expulsá-la
definitivamente e não perdeu tempo em conseguir um advogado,
Heitor Lima, que três dias após a aceitação da defesa
proposta por ela entrou com pedido de habeas corpus
pretendendo, com isso, evitar que Olga fosse entregue ao governo
nazista.
O desfecho do pedido não podia ser mais trágico. O pedido de habeas
corpus foi negado e com isso Olga é enviada grávida para
um Campo de Concentração nazista.
Inconformismo
Em função da notícia da recusa do pedido de habeas corpus
de Olga, todos os presidiários sentiram-se lesados e
fragilizados. Há uma tentativa frustrada de rebelião.
Prestes, mesmo preso em um cubículo, por vezes consegue
informar-se acerca do que está ocorrendo com Olga. Sua mãe e
sua irmã, Leocádia e Lígia, em Moscou, sabendo da prisão
dele e de Olga partem para a Espanha, de onde iniciam uma
campanha internacional pela liberação de seus passaportes
brasileiros, assim como pela libertação dos presos políticos
do país.
A campanha, contudo, não alcança os EUA, já em franca oposição
ao nazismo, o que seria de fundamental importância para a
conquista do intento das duas idealistas.
Olga, Elise Ewert e Carmen Ghioldi, foram entregues à polícia
política nazista por decreto do governo Vargas. Aguardando o
momento de serem deportadas, amigos das três se mobilizaram o
quanto podiam para evitar a transferência que, se sabia, ser um
passaporte para a morte. Através de cartas e pedidos de habeas
corpus, Maria e Luiz Werneck de Castro tentaram adiar a extradição
de Olga, mas em vão. Heitor Lima também tentou; escreveu uma
carta a D. Ivete Vargas, esposa do presidente, mas de nada
adiantou.
A viagem para a Alemanha era retardada justamente porque se
aguardava um navio aliado ao Eixo que fosse direto, sem escalas,
do Brasil à Alemanha. Caso fizesse alguma escala as
prisioneiras seriam libertadas como já acontecera em outras
ocasiões. O La Coruña, navio que seria encarregado de levar
Olga e suas camaradas à Alemanha, atracaria no cais do porto do
Rio de Janeiro no dia 23 de setembro de 1936. Sabendo disso,
Filinto Muller organizou toda uma estratégia para transportar
Maria Prestes ao navio.
Carlos Brandes vai até a Casa de Detenção e convida Olga a
sair do presídio com o pretexto de levá-la ao hospital, para
que esta tivesse o filho em segurança. Os detentos não
acreditam em Brandes e passam a abrir as celas, com gazuas, espécie
de chaves confeccionadas por um dos presos, reservada para casos
especiais, ou arrombando-as. Sem conseguirem resistir, os presos
ainda conseguiram impor uma condição, a de que junto a Olga
fossem dois outros presos. Não adiantou. Olga sequer chegou a
descer no hospital. O comboio militar seguiu até o cais do
porto sob uma chuva fina. Quando foi retirada da ambulância,
ainda deitada na maca, a caminho da escada do navio, Olga pôde
ver, rapidamente, entre os pingos de chuva, o nome La Coruña
gravado no casco. Por um instante, teve esperanças de estar
sendo embarcada num navio espanhol. Mas ao mover a cabeça um
pouco, virou os olhos para cima e viu, tremulando no mastro
principal, uma bandeira com a suástica negra ao centro. Suas
esperanças eram cada vez menores.
Uma
heroína entre prostitutas e ladras...
Dez quilos mais magra, Olga, grávida, foi levada para o La Coruña.
O investigador João Guilherme Neuman foi encarregado de escoltá-la.
Ele contou a Olga que Elise Ewert também estava sendo
embarcada, na cabine vizinha a ela.
Olga foi embarcada contra as leis da navegação por estar grávida.
Ela pediu que instalasse uma companhia na sua cabine para a
eventualidade de sentir-se mal.
A primeira noite foi de insônia e vômitos por causa do
movimento do navio e do barulho do motor. No primeiro dia, Olga
passou trancada na cabine, no segundo, ela e Sabo colocaram a
cadeira no corredor e ficaram conversando. No quarto dia de
viagem o navio chegou a Salvador; foi uma parada rápida. Com o
dinheiro que tinha, Olga comprou algumas coisas.
No dia 3 de outubro eles ultrapassaram a linha do Equador. Olga
e Elise receberiam autorização após o jantar para olhar pelas
escotilhas o dirigível alemão Zeppellin.
Na noite de 12 de outubro o La Coruña foi surpreendido com a
presença de outro navio, mas era apenas um barco português
perdido em alto-mar.
Às seis horas da manhã do dia 18 de outubro o navio atraca em
Hamburgo. A tropa de choque nazista estava ali para receber Olga
e sua amiga.
Pouco depois do meio-dia Olga chega a Berlim. Vai diretamente
para a temida prisão de mulheres. Chegando lá ganhou a roupa
padrão das prisioneiras e teve a cabeça raspada. A cela era um
cubículo de dois metros por dois e com um colchão fino sobre
uma laje de concreto.
Olga ainda não tinha chegado a Hamburgo quando Lígia e Dona Leócadia
receberam uma carta contando o que acontecera à esposa de
Prestes. No dia 11 de novembro foram ao quartel-general da polícia
secreta, para ver a mulher de Prestes, mas o máximo que
conseguiram foi deixar comida e roupas. Voltaram à França com
a vaga promessa que seriam avisadas sobre o nascimento do bebê.
Na madrugada de 27 de novembro de 1936, exatamente um ano após
a fracassada revolução, nasceu Anita Leocádia, um bebê
gorducho e saudável.
Só no começo de fevereiro, quando Anita entrava no terceiro mês
de vida, Dona Leocádia e Lígia souberam de seu nascimento. O
ofício da Cruz Vermelha transmitiu à avó o risco que a
garotinha corria: assim que o leite da mãe secasse, ela seria
entregue a um orfanato nazista.
A campanha organizada a partir da França passou a reclamar
desde então, a libertação de Prestes, no Brasil e de Olga e
Anita, na Alemanha. Dona Leocádia e Lígia se juntaram à irmã
de Ewert.
No Rio de Janeiro, o jovem advogado Heráclito Sobral Pinto,
cristão militante, resolve por conta própria defender Prestes
e Arthur Ewert frente ao Tribunal de Segurança Nacional.
Prestes rejeita a oferta de defesa alegando que Sobral é um
homem de mentalidade burguesa sem capacidade ou desejo efetivo
de defendê-lo. Sobral Pinto não desistiu, recorreu a mãe de
Prestes para que conseguisse convencer o filho a aceitar a sua
defesa. Meses depois Prestes recebe um bilhete de sua mãe e
acaba mudando de idéia.
A primeira intervenção de Sobral Pinto foi tentar parar com as
torturas a Ewert utilizando-se até mesmo do Código Defesa dos
Animais – tal o nível em que se encontrava o alemão. Também
consegue para Prestes o direito de receber cartas de sua mãe:
foi através de uma delas que ele soube do nascimento de sua
filha.
A
família intervém!
A notícia de que era pai e de que Olga estava viva deu novo ânimo
a Prestes, além disso, Sobral Pinto conseguiu encaminhar suas
respostas às cartas recebidas.
Em junho, Olga recebera novas notícias do marido. No dia 8 de
maio Prestes fora condenado pelo Tribunal de Segurança Nacional
a 16 e 8 meses a prisão; Arthur Ewert, a 13 anos.
Em julho de 1937, Dona Leocádia retornou a Alemanha para tentar
negociar com a GESTAPO a libertação de Olga e Anita. Mas eles
não aceitaram sequer discutir o assunto, pois não consideraram
nenhum parentesco entre Olga, Anita e Dona Leocádia. A única
pessoa que talvez pudesse ajudá-la era a mãe de Olga.
Dona Leocádia viajou para a capital da Baviera. Ao chegar na
casa da mãe de Olga, encontrou uma mãe que rejeitava a própria
filha...
Poucas semanas após o nascimento de Anita, Olga conseguiu
enviar um requerimento à embaixada brasileira pedindo o
registro da recém-nascida como cidadã brasileira.
O advogado Sobral Pinto tentou levar o tabelião para que
Prestes assinasse o requerimento de paternidade mais foi
impedido pela justiça. À medida que o tempo passava a angústia
ficava maior: a qualquer momento os nazistas poderiam tirar
Anita de sua mãe.
Sobral Pinto, sempre persistente e insistente, conseguiu levar o
tabelião à cela de Pestes. Logo depois de Prestes assinar o
requerimento ele o enviou à Alemanha e, com ele, Dona Leocádia
e Lígia conseguiram tirar pelo menos Anita da mão dos
nazistas.
Para
Olga, é o fim, mas para Anita há esperança!
Anita foi suprimida de Olga sem que lhe dissessem uma única
palavra sobre o destino da filha – quando a tarefa de alguém
é atormentá-lo, o esmero por vezes conquista refinamentos de
crueldade. Ficou traumatizada, debilitada emocionalmente, quase
enlouquece. Acreditava que Anita havia sido enviada a uma creche
nazista. Aos pouco foi se recuperando e voltou a praticar
atividades físicas e mentais.
Depois de um mês ela recebeu a carta de Dona Leocádia
informando que sua filha estava bem e com ela. Olga ressuscitou
e voltou a sonhar com a liberdade!
Nos primeiros dias de março ela foi transferida para uma nova
prisão: a fortaleza de Lichtenburg. Ao chegar lá foi conduzida
a uma solitária. No sexto dia de solitária recebeu a visita
clandestina de Gertrud Fruchulz, uma velha amiga de Neukölln.
Ela trazia alimentos para Olga, falou da fortaleza de
Lichtenburg e contou que sua amiga Elise Ewert, Sabo, estava
ali.
Olga as semanas seguintes sem receber qualquer notícia.
Manteve-se mental e fisicamente ágil jogando xadrez mentalmente
e praticando exercícios físicos.
Quando saiu da solitária seu primeiro desejo foi ver Sabo:
estava magra, tuberculosa e totalmente diferente.
Durante os quase dois anos em Lichtenburg ela seria levada várias
vezes a Berlim para novos a atormentadores interrogatórios.
O
Campo de Concentração
O
Comboio que levava Olga sai de Lichtenburg rumo ao norte.
A
índole belicosa dos nazistas os levou a promover uma mudança
no sistema prisional da Alemanha, transformando as cadeias em
estruturas a um só tempo penais e “produtivas para a economia
do Reich.”
Assim
que chega ao campo de concentração, Olga percebe organização
e rigidez extremas. As mulheres eram classificadas por um triângulo
colocado no braço ou no peito, através do qual se identificava
o motivo de seu aprisionamento. Ela não foi identificada como
comunista, mas como anti-social, assim como o eram as
prostitutas e ladras comuns.
Pela
sua capacidade e ascendência moral, Olga recebeu dos
carcereiros a missão de organizar seu local de moradia e
trabalho. Isso pelo menos traz alguma ocupação útil ao espírito.
Instalou hábitos de higiene e levou um reforço à auto-estima
das outras presas escrevendo até mesmo uma apostila rudimentar,
com ilustrações e mapas através da qual contava sua história
e falava sobre os caminhos do mundo. A seguir, intimada a depor
em Berlim, escreve um bilhete para a sogra.
Grandes
indústrias alemãs utilizavam os prisioneiros dos campos de
concentração em trabalhos forçados.
Olga
recebe a notícia de que Sabo não resistiu a tuberculose que se
agravou depois da chegada do inverno e morreu, tendo finalmente
um fim a seus traumas e suas lembranças da tortura.
Descansou...
O
Reichfürere SS Heinrich Himler, em visita aos campos de
concentração, ordenou que as presas fossem trancadas em suas
celas. Durante a inspeção, uma mulher o xingou e ele ordenou
que 80 mulheres fossem punidas como forma de aviso. Dentre as
escolhidas para o castigo estava Olga Benario, violentamente
chicoteada.
Certa
feita uma prisioneira delatou Olga a respeito do curso de
conscientização política que na prática ministrava, mesmo
que em condições ainda menos que precárias e ela foi
novamente torturada. Em outra oportunidade chegou mesmo a
dirigir a encenação de uma peça de teatro escrita e dirigida
pelas prisioneiras. Tudo foi descoberto e as presas foram
levadas a passar a noite sem agasalho, no palco, sob o rigoroso
inverno, etc.
Olga
em seus momentos finais
O Campo de Concentração já não era unicamente feminino,
chegaram prisioneiros.
As notícias vindas por parte de prisioneiras recém-chegadas se
opuseram ao otimismo de Olga: Hitler havia conquistado boa parte
da Europa.
A situação nos campos de concentração era de terror cada vez
mais crescente. Insalubridade não apenas psicológica ou do
ponto da violência física direta: Olga contraiu uma virose que
quase lhe tirou a vida. Mulheres eram executadas sem motivos
plausíveis. Além disso surge mais um agravante: a chegada de médicos
para realizarem experiências genéticas com as presas.
O vírus da tuberculose era disseminado pelos médicos, e a todo
momento mulheres morriam, assassinadas pelos médicos. Dizendo
tratar-se de um vírus letal, eles aplicavam constantemente a
eutanásia. Os médicos faziam outras experiências a respeito
de doação de órgãos e de defesa do organismo, usando as
prisioneiras como cobaias.
Aquelas perversões tratadas como pesquisas médicas não seriam
o fim da loucura nazista. Até então as execuções
praticadas em Ravensbruck vinham sendo feitas individualmente.
No começo do inverno de 1942 começaria a “Solução
Final”, o extermínio sistemático e deliberado de judeus e
comunistas. Segundo notícias que corriam entre os presos,
o médico Fritz Menennecke ali estaria com a função de
selecionar as mulheres que poderiam ser utilizadas como mão-de-obra
escrava e as que seriam eliminadas nas câmaras de gás e nos
fornos crematórios.
Quando as primeiras levas de prisioneiras de Revensbruck foram
removidas, as remanescentes ficavam em dúvida: estariam sendo
transferidas para outros campos ou seriam eliminadas. Elas
combinaram que cada uma levaria um toco de lápis e um papel
onde deveriam colocar o nome do local para onde estavam sendo
transferidas. Colocariam na barra da saia. A volta
do caminhão trazendo as roupas usadas pelas mulheres
transferidas repetiam o mesmo nome: Bernburg.
Uma cidadezinha situada a 100 quilômetros a sudoeste de Berlin,
Bernburg tinha apenas um prédio mais imponente que a Igreja
Luterana: um hospital para tratamento de doenças mentais.
Neste hospital, seis dos 15 prédios de cindo pavimentos do
hospital psiquiátrico foram ocupados por ordem de Himmler e
transformados em Propriedade do Reich - camuflando as atividades
que as SS passariam a exercer ali.
No subsolo do Hospital foram construídos amplos cômodos com as
paredes e o chão revestidos de azulejos brancos de cujo teto
pendiam chuveiros. Parecia um local para banho coletivo.
Nascia a invenção macabra do nazismo: a primeira câmara de
execução em massa de prisioneiros através de asfixia por gás.
O primeiro teste foi realizado com os próprios alemães,
soldados que se negaram a bombardear posições republicanas na
Espanha, considerados desertores, foram punidos com a morte por
inalação de “Zyklon – B”.
No começo de fevereiro de 1942, um pouco antes de Olga
completar 34 anos, as mulheres foram reunidas no pátio central
de Revensbruck para ouvir nos autofalantes do campo a relação
das 200 prisioneiras que na manhã seguinte seriam
“transferidas para outros campos de concentração”.
Eram chamadas em ordem alfabética. Olga Benario Prestes
seria a de número 150. Junto com ela iriam as amigas
Tilde Klose, Irena Langer e Rosa Menzer.
Os autofalantes davam um último aviso: as prisioneiras
relacionadas teriam 30 minutos para recolher seus pertences e se
apresentar para o embarque. Meia hora foi o suficiente
para que Olga escrevesse uma carta à filha e ao marido.
Dez dias depois, quando o caminhão voltou com as roupas das
mulheres embarcadas naquela noite, Emmy Handke correu a procurar
o vestido de Olga. Apalpou a barra e dela tirou um
pequenino pedaço de papel onde estava escrita apenas uma
palavra: Bernburg.
Guerra
e Redemocratização
Vargas
era uma raposa ladina. Contava em seu ministério com
simpatizantes do Eixo e simpatizantes dos aliados. Abriu
conversações com ambas as forças e buscou extrair o máximo
de cada uma. Os EUA – aliados da URSS na Guerra –, após
muita negociação e diálogo, fizeram a melhor oferta: a
construção da Companhia Siderúrgica Nacional e a de bases
militares no Nordeste, em troca de apoio durante o esforço de
Guerra, revertendo as instalações ao governo brasileiro quando
esta chegasse ao final. Ao término da Segunda Guerra Mundial, o
governo brasileiro solicita um reatamento de relações diplomáticas
com a União Soviética. Mulheres, estudantes e profissionais
liberais organizam comícios em todo país, exigindo a concessão
imediata de anistia política aos presos e exilados.
Getúlio Vargas promete convocar eleições ainda naquele ano.
Dutra apresenta-se como candidato governista à Presidência e
inclui na sua plataforma uma inacreditável bandeira: a legalização
do Partido Comunista. Agora a reivindicação das ruas é pela
anistia e pela convocação da Assembléia Nacional
Constituinte.
Em 18 de abril, Vargas assina um decreto que concede anistia aos
presos políticos. Antes mesmo que o ato fosse publicado no Diário
Oficial, os cinco primeiros beneficiários da medida deixam as
prisões. Dentre eles estava Luís Carlos Prestes que ao sair
pergunta sobre o destino de Olga e de seu amigo Arthur Ewert,
que tinha sido beneficiado pela anistia mas, torturado até a
loucura, talvez não tivesse condições de desfrutar da
liberdade pois estava internado num manicômio no Rio de
Janeiro. Quanto a Olga, não tinha nenhuma informação. Naquele
momento, porém, quem elogiava o presidente da República era Luís
Carlos Prestes que havia sido vitimado pela repressão dirigida
por Vargas. A primeira reação contra o apoio de Prestes a
Vargas parte de seu antigo advogado Heráclito Sobral Pinto que
condena qualquer união nacional com o senhor presidente.
A primeira manifestação dos comunistas após longo período na
ilegalidade ocorreu estádio do Pacaembu, em 1943 e teve a
participação de grandes intelectuais e de uma grande massa
popular. Depois da manifestação foi em direção à estação
Roosevelt, onde tomaria um trem de volta ao Rio de Janeiro.
Um Telegrama
dos aliados e uma carta de Olga
Cercado
de amigos ele se preparava para subir a escada do vagão-leito,
quando um jovem chegou correndo, abrindo passagem entre os que
se despediam do chefe comunista:
_
Capitão! Capitão Prestes! Um momento, não embarque!
Temeu-se
uma tentativa de agressão, mas o rapaz se identificou:
_
Sou repórter da agência de notícias United Press. Nós tínhamos
pedido às sucursais européias que buscassem informações
sobre Olga Benario, e acabamos de receber este telegrama sobre
ela, enviado pelo correspondente em Berlim.
Ansioso,
Prestes levou o pedaço de papel aos olhos e leu-o com o rosto
crispado, diante do silêncio dos amigos que o fitavam. Levantou
a cabeça e disse apenas três palavras:
_
Olga está morta.
Era
um despacho curto, sem muitos detalhes:
“Berlim
- As autoridades aliadas acabam de informar que entre as 200
mulheres executadas na câmara de gás da cidade alemã de
Bernburg, na Páscoa de 1942, estava a senhora Olga Benario,
esposa do dirigente comunista brasileiro Luís Carlos
Prestes.”
Prestes
entrou no que já começava a se movimentar rumo ao Rio de
Janeiro, caminhou por entre as poltronas em silêncio, sentou-se
e leu mais uma vez a notícia, antes de guardar o papel no bolso
do paletó.
Só
muitos anos depois é que ele receberia a última carta que Olga
escrevera a ele e à filha, ainda em Ravensbrück, na noite da
viagem de ônibus que a levaria à morte em Bernburg. Transcrevo
literalmente pela beleza da peça e para que se possa conhecer
melhor o coração da mulher.
“Queridos:
Amanhã
vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade.
Por isso, não posso pensar nas coisas que me torturam o coração,
que são mais caras que a minha própria vida. E por isso me
despeço de vocês agora. É totalmente impossível para mim
imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca
mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quisera
poder pentear-te, fazer-te as tranças - ah, não, elas foram
cortadas. Mas te fica melhor o cabelo solto, um pouco
desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte. Deves andar de
sandálias ou descalça, correr ao ar livre comigo. Sua avó, em
princípio, não estará muito de acordo com isso, mas logo nos
entenderemos muito bem. Deves respeitá-la e querê-la por toda
a tua vida, como o teu pai e eu fazemos. Todas as manhãs
faremos ginástica... Vês? Já volto a sonhar, como tantas
noites, e esqueço que esta é a minha despedida. E agora,
quando penso nisto de novo, a idéia de que nunca mais poderei
estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte.
Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a
tudo de bom que me destes? Conformar-me-ia, mesmo se não
pudesse ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me
olhassem. E queria ver teu sorriso. Quero-os a
ambos, tanto, tanto. E estou tão agradecida à vida, por
ela haver me dado a ambos. Mas o que eu gostaria era de
poder viver um dia feliz, os três juntos, como milhares de
vezes imaginei. Será possível que nunca verei o quanto
orgulhoso e feliz te sentes por nossa filha?
Querida
Anita, Meu querido marido, meu garoto: choro debaixo das mantas
para que ninguém me ouça pois parece que hoje as forças não
conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível. É
precisamente por isso que me esforço para despedir-me de vocês
agora, para não ter que fazê-lo nas últimas e difíceis
horas. Depois desta noite, quero viver para este futuro tão
breve que me resta. De ti aprendi, querido, o quanto
significa a força de vontade, especialmente se emana de fontes
como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor
do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último
instante não terão porque se envergonhar de mim. Quero que me
entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me
renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no
entanto, podem ainda acontecer tantas coisas... Até o último
momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou
dormir para ser mais forte amanhã. Beijos pela última vez.
Olga.